Ragnarök – Aprenda Mais Sobre a Mitologia Nórdica

Assistiu Thor: Ragnarok nos cinemas? Para aqueles que adoram acompanhar os quadrinhos e agora os filmes da Marvel, não pode deixar de pesquisar e aprender mais sobre o que significa tudo isso.

A mitologia nórdica é riquíssima. Há um vasto panteão de deuses e histórias, que tentam, como toda a história nos mostra em outras regiões, explicar um pouco sobre a origem do cosmos, da vida e do ser humano, ajudando a traçar uma linha do tempo.

Para conhecermos os mitos a fundo precisamos de muitas, mas muitas obras na estante. É necessário muita paciência e dedicação, mesmo para sabermos o básico. Imaginem então na era pré-internet, onde não havia métodos de consulta senão em livros nos idiomas originais. Podemos levar décadas para muitas vezes saborearmos parcas gotas do hidromel das histórias mais interessantes.

Esse hidromel foi trazido por essa autora, Mirella Faur no livro Ragnarök – O Crepúsculo dos Deuses – Uma Introdução à Mitologia Nórdica. É impossível deixar de notar a profundidade de alguns detalhes contidos no livro e a determinação da autora em reunir todas essas informações, sem que o texto se torne tão maçante, como costumamos ver em muitos livros que seguem esse estilo.

Gigantes de gelo na mitologia nordica

“Vários mitos nórdicos são permeados pela profunda compreensão e a resignada aceitação dos desígnios do destino, da transitoriedade da vida e da inexorabilidade da morte, às cujas leis eram submetidos todos os seres vivos e os próprios deuses. Por terem sido criados pela união de elementos opostos, gelo e foto, gigantes e deuses, as divindades nórdicas não eram perfeitas nem eternas, tendo em si a semente da morte, assim como os seres humanos.”

A propósito, a mitologia Nórdica sofreu sincretismo por muitos povos, todos queriam uma pequena (ou gigante) fatia da grandiosidade presente no panteão nórdico. Hel, por exemplo, na mitologia era apenas o reino da deusa Hel, dedicado ao repouso, cura e espera do renascimento e foi substituído, pouco a pouco, no imaginário popular pela visão de Inferno com o uso do nome da deusa para representar o Inferno, “hell” e “hölle”.

Por falar em Hel, a parte da mitologia nórdica que fala da vida após a morte é a uma das partes mais interessantes, incluindo os diversos caminhos possíveis para os seres após a morte, dentre eles os reinos mais etéreos e o Valhalla, para os mortos em combate.

Odin de acordo com a mitologia nórdica

Nesse trecho abaixo, podemos ver um pedacinho da parte sobre o deus Odin e que os quadrinhos de Thor, assim como o filme, respeitam muito essa parte da mitologia (modificando apenas como ele perde o olho), mas mantendo o lance de ficar entre a vida e a morte, entre diversos outros detalhes revelados pouco a pouco no livro. Mirella comenta também, por exemplo, que a moral popular de que “o divino escreve certo por linhas tortas” tem como origem um ditado nórdico, como podemos na citação seguinte:

A natureza de Odin é paradoxal e misteriosa, ele é Senhor dos juramentos e da traição, da invencibilidade e da determinação da morte, das certezas e das dúvidas, sendo assim o Mestre que ensina pelos testes e desafios, pois cada passo na sua senda envolvia uma luta, externa ou interna… a principal característica de Odin é a sabedoria…

Os conceitos presentes na cosmogonia nórdicas são muito interessantes e estão repletas de atributos bem humanos aos deuses, com medos e anseios. Em tudo há um equilíbrio e tudo na vida deles girava em torno do conceito de transformação constante.

O Ragnarök, que dá nome ao livro, é a batalha do fim dos tempos e ela é cíclica (você pode ver mais detalhes na entrevista que inseri abaixo da resenha com a autora). Todos os deuses morrem, aliás, essa característica de que os deuses podem perecer é uma coisa muito interessante, e o livro aborda isso de um jeito legal, seja pelas nuances horríveis, como o navio feito com unhas de mortos, ou pelas preciosidades e curiosidades de alguns dos mitos, como o das maçãs douradas.

…sendo o deus mais amado e invocado pelos povos nórdicos, vários lugares guardam até hoje seu nome, assim como famílias das Ilhas Faroe se consideravam seus descendentes. Ele era invocado no seu principal festival, de Yule, fazendo uma enorme fogueira com troncos de carvalho – sua árvore sagrada – pedindo que concedesse ao povo suas bênçãos para um ano favorável. As noivas usavam sempre roupas vermelhas, a cor a ele dedicada, e os anéis de noivado tinham pedras vermelhas por ser Thor o deus que abençoava com seu martelo as uniões.

No livro Ragnarök – O Crepúsculo dos Deuses podemos ver citações sobre o mito do Anel de Nibelungo, que serviu de inspiração para a criação da faceta do universo de Tolkien, em O Senhor dos Anéis, podemos saber mais detalhes sobre os povos Teutônicos e proto-germânicos. Com certeza algum detalhe da cultura nórdica impressionará o leitor que curte a sabedoria contida nos mitos.

Thor no Ragnarok

Thor era o padroeiro dos trabalhadores braçais, fazendeiros ou camponeses, viajantes e comerciantes, até mesmo dos escravos. Descrito como um deus celeste, regente do trovão e do relâmpago, era também a personificação da força e do poder do guerreiro, que lutava sem cessar com os gigantes, protegendo Midgard, a morada da humanidade, da destruição. Amplamente cultuado e reverenciado, Thor era protetor dos vários aspectos da vida humana e dos ritos de passagem masculinos, defendendo as comunidades dos cataclismos naturais e proporcionando fertilidade da terra.

Aqueles que cultuavam Thor eram perseguidos, como revela nesse trecho abaixo:

Foram encontrados mais templos e altares a ele dedicados do que a qualquer outra divindade; amuletos com o seu símbolo sagrado – o martelo, pendurado em uma corrente de ferro, aço ou prata – continuaram a ser usados até depois da cristianização, coexistindo com o crucifixo, até que, os amuletos pagãos foram substituídos pela cruz cristã. No final da era pagã, Thor passou a ser visto como o principal adversário de Cristo e um sério empecilho na cristianização dos povos nórdicos, seu culto sendo proibido e seus adeptos, perseguidos.

Em diversos trechos podemos ver quais seriam as características de Loki e sua ascendência:

Loki na mitologia

No seu mito, Loki aparece como filho do gigante Farbauti (o cruel) personificando o relâmpago e de Laufey (ilha com folhas), sem se especificar se ela era gigante ou deusa. Como ele era conhecido como “filho de Laufey” (e não do Farbauti) supõe-se que por ser sua mãe uma deusa, este fato permitia sua permanência em Asgard…

Loki é uma figura sociável, participando de viagens e aventuras junto com os deuses e sentindo-se à vontade no meio deles, assim como junto dos gigantes e monstros. Dotado de poderes mágicos e da capacidade da metamorfose, Loki manifesta o seu lado sombrio na paternidade, sendo pai do lobo Fenrir, de Jörmungand (a Serpente do Mundo), ambos agentes destruidores nos eventos do Ragnarök.

Há uma parte bem interessante do livro dedicada às deusas e seus mitos. As deusas são colocadas no mesmo patamar dos deuses, ao contrário de outras culturas. E o livro deixa bem claro como a transcrição e a tradução feita pelos monges cristãos foi destruindo, aos poucos, esse conceito, deixando evidentes apenas as partes masculinas, seus feitos heróicos e como, em contrapartida, os poemas, contos de fadas, folclore e costumes populares tentaram manter viva essa parte feminina da cultura nórdica a todo custo. Esse trecho, retratado no livro, citando o Prose Edda é bem relevante:

Não são menos sagradas as deusas, nem seus poderes são menores do que os dos deuses.

As maçãs douradas que conferem vida longa aos deuses também é abordado no livro.

Além da maior parte dos capítulos ser iniciada por um trecho do Prose Edda ou do Poetic Edda que são os remanescentes poemas que ajudam a perpetuar a cultura nórdica, nesse trecho podemos ver qual era a relação da cultura deles com o frio:

A cosmogênese nórdica é permeada de toques dramáticos e trágicos, e está centralizada no eterno e perpétuo conflito entre as forças positivas e negativas da natureza, representadas pela força expansiva do fogo e a contração e cristalização do gelo. Diferente da mitologia das culturas favorecidas por climas amenos, colheitas fartas e os benefícios do calor solar, os mitos nórdicos refletem a agreste natureza das montanhas, geleiras e vulcões, com a terra banhada pelas ondas furiosas do mar gelado, com breves interlúdios de verão ensolarado e vegetação abundante. O clima e a paisagem das terras nórdicas tiveram uma grande influência na modelação das crenças religiosas e dos conceitos, costumes e valores dos seus habitantes. Era natural que a difícil sobrevivência  nos longos e rigorosos invernos árticos, a escassez de luz e de calor solar, que colocavam em risco a própria vida, criassem as imagens do gelo e da escuridão como monstros malévolos e ameaçadores.

Falando em invernos rigorosos, é interessante notar que as características femininas eram atribuídas ao Sol e elementos de calor (vida) e as masculinas ao frio (morte):

Nos contos de fadas alemães são descritas várias crenças sobre a deusa solar chamada Frau Sonne e casada com Herr Mond (senhora Sol e o Senhor Lua). As deusas tecelãs Holle (Holda) e Berchta (Perchta) descritas em inúmeras lendas e contos de fada da Alemanha, Áustria e Suíça, apareciam com características solares como: luz solar irradiando dos seus cabelos quando os penteavam, carruagens puxadas por joaninhas (associadas ao sol), procissões no início da primavera, chuva ou pedaços de ouro (presentes para as pessoas trabalhadoras e de boa índole), apelidos de “brilhante”, celebrações no solstício de inverno e sua adaptação final pela igreja cristã na figura de Santa Luzia.

Yggdrasil e sua Relação com a Cabala
Arte por: rosettedelacroix.com

Além disso também temos no livro a relação entre os nove reinos da Yggdrasil e a Cabala, além de outras curiosidades específicas de cada um dos reinos.

Esse trecho me fez lembrar dos sumérios e de Conan, além do mangá Berserk e das categorias de guerreiros de D&D, acho legal saber uma das origens disso:

Havia classes de guerreiros escandinavos chamados berserks e ulfhednarm nomes que significavam “camisa de urso” ou “de lobo”, ambos vistos como animais valentes, comuns nas sagas e lendas. A sua descrição como guerreiros fanáticos dedicados a Odin” era resultado do seu árduo treinamento xamânico, com uma férrea disciplina e a crença de que eles eram seres especiais protegidos pelo deus. O treinamento e a crença favoreciam um estado de transe violento quando eles lutavam sem armaduras, nus ou cobertos de peles de animais urrando como feras selvagens. Eles matavam os inimigos sem piedade e eram imunes aos golpes deles.

Além disso, uma das curiosidades legais também é a do motivo de cortarem as cabeças dos inimigos… até mesmo se forem gigantes, claro (risos). É uma pena não poder citar o livro inteiro:

Algumas sagas islandesas mencionam o medo da morte e dos chamados “mortos-vivos” (draugar), que podiam agir de forma destrutiva contra os vivos. Por isso, conforme comprovam achados arqueológicos de corpos mutilados ou com as cabeças decepadas, julgavam necessário cortar a cabeça do cadáver, furá-lo com uma estaca e queimá-lo ou destruí-lo.

Muita dessa sabedoria não será lembrada pelos leitores em decorebas, nem de lembrar a grafia exata de todos os nomes dos deuses, mas há espaço para os que curtem esses detalhes também. Há até um miniguia de pronúncia, glossário, um resumo cronológico para a gente visualizar o plano geral da coisa toda e uma lista com os livros usados na pesquisa para o leitor acompanhar e ver até onde vai o caule da Yggdrasil.

Índice do Livro (para se ter uma ideia do quão completo ele é):

As migrações – Os Vikings – A Cristianização – Fontes escritas – Vestígios arqueológicos – A sociedade nórdica – A compreensão dos mitos – Cultos, práticas e rituais – O ressurgimento atual das antigas tradições – As runas: origem e uso oracular e mágico – Cosmogonia – A criação do mundo – Ragnarök, o crepúsculo dos deuses, o fim dos tempos – Yggdrasil, A árvore cósmica – Os nove mundos de Yggdrasil – Panteão nórdico – Arquétipos da mitologia nórdica – divindades – gigantes – Elfos – anões – outros seres sobrenaturais – espíritos da natureza – protetores das moradias – O povo de Huldru – Mulheres-freixo – Mulheres-arbusto – Vittra – Espíritos das águas – Espíritos do mar – Mãe do mar – Gnomos – Fantasmas e mortos-vivos – Protetores individuais – O princípio masculino, deuses e mitos – Senhores do céu e das batalhas – Odin/Wotan, O pai supremo – Odhroerir, o elixir da inspiração – a fonte de Mimir – A visita de Odin a Vafthrudnir – A descoberta das runas – O mito de Geirrod e Agnar – A aparência de Odin – Odin como personagem histórico – Tyr (Tiwaz, Tiw, Dieus, Tei, Tuisco, Ziu) O senhor da batalha – A Amarração de Fenrir pelo deus Tyr – Thor (Thunor, Thunar, Donnar, Donner, Perkun), O Deus do Trovão – Mitos de Thor – A jornada de Thor para Utgard-Loki – As pescarias de Thor – O duelo de Thor com Hrugnir – A visita de Thor a Geirrod –  O roubo de Mjöllnir – Regentes da Terra e do mar – Frey, O Senhor, O fértil – Njord (Njördhr), Deus dos navios e da riqueza – O mito de Ngord e de Skadhi – Aegir, Aquele que preparava o hidromel – O caldeirão de Aegir – Regentes da luz e da sombra – Heimdall (Rig, Gullintanni), O Deus Branco da Luz – Mitos de Heimdall – A criação da humanidade – o roubo de Brisingamen – Baldur (Balder, Baldr), O brilhante, belo e amado deus – Loki (Loke, Lokje, Lodur), O trapaceiro – Mitos de Loki – A construção do muro de Asgard – o tesouro do anão Andvari – o roubo das maçãs da juventude eterna – os tesouros dos deuses – a vingança de Loki – a punição de Loki – Regentes da poesia e da justiça – Deuses pouco conhecidos e Deuses mistoriosos – Os filhos do deus Odin – Os filhos de Thor – Princípio Feminino – Protetoras sobrenaturais divinizadas – Disir ou Idises – Matres ou Matronas (mães) – Nornes (Nornir), as senhoras nórdicas do destino – Orlög e Wyrd – As grandes senhoras – Frigga, A Amada – O mito dos longobardos – As acompanhantes de Frigga – Freyja, A senhora – Regentes da terra e do mar –  Nerthus – Ran – As Donzelas das Ondas – Regentes das Estações – Idduna, Gerd, Rind, Skadhi e Sif – Mães Terra menos conhecidas – Guerreiras e Protetoras – As Valquírias – Nehalennia – Thorgerd Holgabrud – Regentes anciãs da tecelagem e do tempo – as senhoras brancas, as mulheres-elfo – Holda – Berchta – Thrud, A regente do tempo – Regentes celestes – Sunna, Beiwe, Bil, Nott – Regentes da Morte – Hel, a senhora do mundo subterrâneo – Tuonetar, a raninha dos mortos – O culto nórdico dos mortos – deusas menos conhecidas – Calendário das celebrações nórdicas – A Roda do Ano – Yule, Jull, Jol, Midwinter, O meio do inverno – Thorablot – A festa de Thor – Disting, Disablot – Festival das Disir – Equinócio da primavera – Solstício de Verão – Festival da colheita – Equinócio de outono – Comemoração das Ancestrais – datas especiais – cerimônias sagradas – ritos de passagem – ritos de nomeaçãoo – consagraçãoo da união – pacto de sangue – ritos funerários – diferenças entre a mitologia nórdica e a greco-romana – o início dos tempos – criação do homem – cosmogonia – fenômencos celestes – nornes e moiras – a mãe do mundo – mitos das estações – regentes da natureza – divindades aquática – Zeus e Odin – Frigga e Hera.

E aí? Merece ir para a estante ou não merece? Digam nos comentários o que acharam.

Alonso Dias

Alonso Dias

Colaborador em eVídeoclipe
Produtor de conteúdo, sonhador e um apaixonado por livros e filmes de ficção científica e de fantasia desde pequeno.
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